Foto: Paulo H.Carvalho/Agência Brasília O Banco de Brasília (BRB) atravessa um momento delicado após ab...

O Banco de Brasília (BRB) atravessa um momento delicado após absorver os efeitos de operações malsucedidas ligadas ao antigo Banco Master. Até aqui, trata-se de um problema conhecido do mercado: desequilíbrios patrimoniais exigem correção, transparência e supervisão. O que passou a chamar atenção, porém, foi a mudança de temperatura política em torno do caso.
Nos últimos dias, ganhou força no Distrito Federal a defesa pública da federalização — e, em alguns discursos, até da liquidação — da instituição. A proposta surge justamente quando o banco tenta executar um plano de recuperação já apresentado ao Banco Central, baseado em venda de ativos, captação de recursos e recomposição de capital.
É nesse contexto que entrou em cena o corregedor nacional de Justiça, Mauro Campbell Marques, ao determinar que tribunais de Justiça que operam folhas de pagamento e depósitos judiciais no BRB prestem esclarecimentos ao Conselho Nacional de Justiça (CNJ). A medida é formalmente administrativa, mas produziu efeito imediato no ambiente político e financeiro.
Os recursos oriundos de depósitos judiciais e folhas de pagamento são relevantes para a liquidez do BRB — fato reconhecido por analistas. Por isso, qualquer movimento que gere incerteza sobre esses contratos tende a ser acompanhado com cautela pelo mercado.
Isso não significa, necessariamente, que haja retirada iminente de recursos. Mas, em momentos de fragilidade, a percepção de risco pesa. E é justamente aí que parte dos agentes financeiros adota postura mais pragmática: antes de soluções estruturais como a federalização, costuma-se observar a execução dos ajustes já em curso.
A avaliação predominante entre técnicos é direta: transferir o controle de um banco público para a União não é remédio automático para problemas de capital. O processo é complexo, politicamente sensível e, em muitos casos, mais lento do que medidas de reequilíbrio financeiro conduzidas sob supervisão do Banco Central.
A decisão do CNJ abriu também uma discussão jurídica silenciosa. O conselho tem competência para o controle administrativo do Judiciário — ponto pacífico. Já a regulação prudencial de instituições financeiras é atribuição típica do Banco Central.
Não há, até o momento, qualquer determinação que interfira diretamente nos contratos do BRB. Ainda assim, a iniciativa elevou o grau de escrutínio sobre o caso e passou a ser observada com atenção por atores políticos e econômicos.
Nos bastidores de Brasília, a movimentação coincidiu com a intensificação de críticas de setores ligados ao Partido dos Trabalhadores e de parlamentares de oposição ao governador Ibaneis Rocha. Aliados do governo local veem convergência política no timing; opositores afirmam que a cobrança por explicações é legítima diante da situação do banco.
O ponto que realmente importa
Há um consenso mínimo entre especialistas: o rombo associado às operações herdadas do Master existe e precisa ser equacionado com rigor técnico. O próprio BRB reconhece o desafio e aposta no plano já submetido ao Banco Central.
A questão que permanece em aberto é de método, não de diagnóstico. No estágio atual, a federalização aparece para parte do mercado como uma medida extrema — e, sobretudo, prematura — diante de alternativas ainda em andamento.
Mais perguntas do que respostas
De um lado, há a necessidade inequívoca de ajuste e transparência. De outro, cresce a disputa de narrativas sobre qual deve ser o destino do banco.
No meio desse tabuleiro, uma pergunta começa a circular com mais frequência: a discussão está sendo conduzida no tempo do balanço ou no tempo da política?
A resposta, por enquanto, ainda está em construção. O que já se sabe é que, para além do ruído, o desfecho do caso dependerá menos de discursos e mais deixarem o BRB executar o que já foi apresentado ao Banco Central.
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